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O tecido que a etiqueta não explica: A escolha de roupas entre a técnica e a intuição

  • Foto do escritor: Leticia de Macedo Pontes
    Leticia de Macedo Pontes
  • 22 de jul.
  • 2 min de leitura

Atualizado: há 6 dias


Por que a busca por “um tecido fresquinho” em São Paulo me lembrou a diferença entre seguir receitas suecas e brasileiras.


Mãos empilham tecidos dobrados azul, creme e verde sobre mesa de madeira em ateliê com novelos coloridos.


Quando você compra roupa na Suécia, ou na Escandinávia, no geral, o ritual é quase sempre o mesmo: a primeira coisa que se olha é a etiqueta interna da peça. Lá, o que se procura são as informações sobre o material, a composição: se é 100% lã, 50% viscose e 50% algodão orgânico, qual a composição do forro, instruções de lavagem, etc. Com os anos, entendi que se buscam informações sobre o desempenho técnico e a durabilidade.


Na Suécia, a relação com os tecidos reflete muito a forma como eles encaram a própria vida, e a cozinha também. Se uma receita sueca pede 250 gramas de farinha e 12 minutos a 175 graus, desviar um grama ou um minuto parece um sacrilégio. Os ingredientes são medidos, pesados e tudo é projetado para funcionar sem sustos. Nos meus 20 anos em Estocolmo, não visitei uma cozinha que não tivesse um termômetro na gaveta.


Agora, de volta a São Paulo e circulando pelas lojas para me atualizar sobre as coleções e marcas presentes por aqui, acompanho também a forma como as pessoas frequentam as lojas e escolhem as peças. E foi aqui que percebi algo bem interessante! Aqui, ler a etiqueta de composição da peça é coisa rara. O que parece importar para a grande maioria é o toque na pele, seguido de uma avaliação profundamente subjetiva resumida em palavras como: “fresquinho”, “quentinho”.


—“Ah, esse tecido parece ser fresquinho, né?”

—“É, parece ser bem gostoso de usar! Não esquenta.”


O “fresquinho” paulistano é intuitivo, sensorial e depende da temperatura do dia, do caimento no corpo e do estado de espírito.


Lembrei da minha mãe me passando uma receita. As medidas aqui, no geral, não são medidas em gramas, mas sim em “xícara bem cheia”, “uma pitada” e, principalmente, no “até dar o ponto”. Você sabe quando deu o ponto porque sente, vê e prova.


Fazer parte de dois mundos tão diferentes me ensinou que o dia a dia fica muito mais rico se damos espaço para o equilíbrio entre regras rígidas e intuição. Uma dá a estrutura e a outra, o ponto final.

 
 
 

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