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Lá tem muita coisa legal, mas não tem SESC

  • Foto do escritor: Leticia de Macedo Pontes
    Leticia de Macedo Pontes
  • há 7 dias
  • 2 min de leitura

Espaço pessoal vs. encontro imprevisível: reflexões sobre o SESC, a identidade social brasileira e o convívio entre gerações.



Uns anos atrás, na rua onde eu morava em Estocolmo, assim que o verão finalmente chegava, a igreja da minha rua abria um pequeno café improvisado no pátio. Na sua simplicidade, ele era charmoso: mesinhas de madeira, vasinhos com flores colhidas no jardim da igreja e o sempre presente cheiro de kanelbulle (o pão doce de canela sueco) no ar.

Mas era algo temporário e contido. Os frequentadores eram idosos sentados sozinhos e mães com seus bebês durante a licença-maternidade. As conversas paralelas eram praticamente inexistentes. Um contato gentil, mas estritamente delimitado. O canto dos passarinhos era o protagonista do ambiente.


Pela minha experiência, a vida pública na Escandinávia é organizada em caixinhas. Crianças no playground, jovens nos bares, idosos em praças ou centros comunitários próprios. A convivência entre gerações é, quase sempre, um evento planejado, raramente espontâneo.

E aí você entra em uma unidade do SESC em São Paulo num sábado à tarde. Eu acho o SESC um dos fenômenos urbanos e sociais mais fascinantes do Brasil. Num mesmo espaço de concreto e sol, você vê um senhor jogando xadrez ao lado de um adolescente jogando vôlei. Uma mãe amamentando perto da fila da comedoria, enquanto um grupo da terceira idade ensaia uma dança circular e universitários leem na biblioteca. Todas as idades, origens e sotaques ocupando o mesmo chão, sem pedir licença.

Há um tempo, tomando um lanche à tarde com a minha família em uma das unidades do SESC, notei uma família que falava português e um idioma que eu não conseguia identificar. Curiosa, comecei a falar com a mãe (descobri que o idioma era letão!) sobre as saudades e as estranhezas de educar filhos em uma cultura diferente da nossa.

A certa altura, a mãe suspirou, sorriu e soltou uma frase que ficou gravada na minha cabeça:

“Lá na Letônia tem muita coisa legal, mas não tem SESC.”

Eu concordo plenamente com ela. Pra mim, o SESC, além de ser um centro cultural e esportivo, é uma tecnologia social de pertencimento. Ele nos lembra que a cidade não precisa ser dividida por bolhas funcionais e que o convívio intergeracional é o que nos mantém humanos, vivos e empáticos.

Na Suécia, aprendi muito sobre espaço pessoal, eficiência e respeito às estruturas. Mas foi voltando a andar pelos corredores do SESC que me lembrei de algo fundamental sobre a nossa identidade (visual e social): a beleza das trocas reais só acontece quando a gente se expõe ao encontro imprevisível.


E você, conhece o SESC? Se você já esteve em alguma unidade, já teve algum encontro inesperado ou teve alguma percepção parecida por lá?

 
 
 

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